E se Bill Russell for melhor estatiscamente falando que Wilt Chamberlain?

O debate de “Maior de todos os tempos” não é algo recente. O original debate foi na década de 60, quando tínhamos 2 polos: em um lado argumentavam sobre Wilt Chamberlain, onde a dominância nas estatísticas era a base. Do outro tínhamos Bill Russell, que colecionou 11 títulos da NBA. Porém, e se tirássemos os anéis de Russell da jogada e usássemos os números contra Wilt, fazendo o argumento estatístico para Bill Russell? Parece brincadeira, né? Então olha como a análise pode ser bem mais profunda do que imagina.

Em 1962, Chamerlain teve médias de 50 pontos e 25 rebotes, jogando cada minuto de cada partida. Eu acredito que não seja tão simples assim. Esses números vieram de um contexto que precisa ser explicado.

Primeiro: tinham muito mais oportunidades de pontuar do que hoje. Em 1962 os times tinham uma média de 130 posses por partida, na qual é 30 vezes mais que em 2020 e, a maior da história. Mais arremessos, mais lances livres, mais rebotes e etc. Essa inchação de números tem que ser examinada da forma correta, porque 50 pontos naquela época não é a mesma coisa que 50 pontos hoje ou no basquete moderno (desde 1980).

Luncheon This Week Celebrates Release Of Wilt Chamberlain Postage Stamps –  CBS Philly
Getty Images

A maneira mais resumida de ver isso é vendo que Wilt pontuou 40% dos pontos do time naquela temporada enquanto estava em quadra. Mas, Kobe e Jordan marcavam em média de 43% dos pontos de suas equipes enquanto estavam em quadra, nas melhores temporadas pontuando da carreira. Wilt também jogava a partida inteira, o que dava um impacto nesses pontos, porque podemos ver que a cada 75 posses por jogo, ele marcava 28.7 pontos. Isso seria a sétima melhor marca da atual temporada, um ótimo número, mas não historicamente falando.

Mesmo assim, Wilt tinha números ofensivos melhores que Russell, você pode pensar. E é verdade. Russell na maior parte de sua carreira foi um pontuador abaixo da média da NBA. Mas a pergunta aqui não é quem fazia mais pontos por jogo, mas sim qual jogador mais ajudou seu time a pontuar de uma forma mais eficiente.

Criar jogadas é o outro pilar do ataque. A habilidade de fazer a vida mais fácil para os outros, não só para você mesmo. Entretanto, mesmo posteriormente liderando a NBA em assistências, originalmente Wilt era um raro passador. Não que ele era ruim fazendo isso, o problema é que ele quase não fazia. Quando vemos o TSA (True shot attempt) naquela temporada, que são arremessos de qualquer lugar e lances livres, e compararmos essas tentativas com assistências, podemos enxergar o quão raro ele passava a bola.

Wilt tentava 19.4 arremessos a cada UMA assistência em 1962, o que mudaria um pouco em 1965, onde ele tentava 12 arremessos a cada assistência. E isso é ótimo individualmente, mas no coletivo era outra história. Os times de Wilt sempre foram medianos quanto a produção e eficiência no auge de Wilt. Em 1962, eles pontuavam apenas 2 pontos acima da média da NBA a cada 100 posses. De 1961 a 1966, os times de Wilt estavam no “normal” da liga, mesmo com ele colocando números históricos. Em 1965 eles tinham o pior ataque da NBA com Wilt tendo 39 pontos de média, mostrando novamente que o impacto positivo não se fazia real.

Esse e um padrão que se repetiu muito ao longo dos anos: um volume muito alto de arremessos não faz uma unidade ofensiva boa. Existem muitas perspectivas que conseguem melhorar um ataque além de pegar a bola em isolation 40% das vezes. Na verdade, os times de Chamberlain melhoraram quando ele começou a arremessar menos. Em 1967 ele tentava 14 arremessos por jogo (em 1962 era 39), o Philadelphia 76ers teve um rating ofensivo de 101.5, o melhor da NBA e até então o melhor da história.

Heróis do passado: Bill Russell
Getty Images

Russell por outro lado nunca foi visto como forçaa dominante no ataque, mas sim um beneficiário de ter grandes jogadores em sua volta, como Bob Cousy, Sam Jones e John Havlicek. Mas tem um grande problema nessa narrativa. Em 1962 o time de Wilt teve 4 All Stars tirando ele. Não muito diferente de Russell, então essa ideia de que os times eram muito distintos é falsa. Porém, enquanto os times de Chamberlain jogavam pelo ataque, o Celtics de Russell era um time defensivo e colocaram a maior dinastia defensiva da história da NBA. Isso se baseava com tamanho, velocidade, mobilidade, tomada de decisão e formações estratégicas. Das 13 temporadas que jogou, Russell foi o pilar do time que em 11 temporadas menos cedeu pontos por posse na liga. “Coincidentemente” foram os anos dos títulos.

No ano antes de Russel chegar, em 1955, os Celtics eram a pior defesa da liga, cedendo 3 pontos a mais que a média da NBA. Com Russell mudou drasticamente e em 1964 sendo o pico de desempenho, os Celtics cediam 10 pontos a menos que qualquer time da liga, discutivelmente a melhor temporada defensiva de um time na história.

Muitas pessoas falam de Wilt dominando Russell no um contra um. Nos 142 encontros dos dois, Chamberlain teve médias de 28 pontos em 51% no TS%, contra 14 pontos em 42% no TS% de Russell. Mas o valor dele não vinha de pontuar, ele ganhou 5 MVPs por fazer a vida dos jogadores mais difícil na hora de pontuar, e Wilt não era uma exceção. Em 1962, melhor temporada dele, ele teve médias de 50 pontos por jogo contra todo time. Contra Russell foram 37 pontos, isso seria 11 na atual NBA por 36 minutos, similar a Paul George em volume e eficiência.

A métrica WOWY, que calcula o valor do jogador comparado ao dos colegas de time, é uma ótima forma de vermos a real diferença entre os dois. Na carreira, Russell consiste em um WOWY de +6.7, enquanto Wilt consiste em +5.2. O de Russell e o 11 maior da história e o de Wilt o 22. Então quando nós analisamos não só os pontos, mas o impacto geral do jogador, percebemos que Russell é melhor que Chamberlain, o que é incrível do ponto estatístico. Sei que pode não ser definitivo, mas é uma ótima forma de tentarmos ver além dos números do box score.

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